Relato de uma ida ao Irã – as mulheres, o lenço, o feminismo e o anti-colonialismo

#AgoraÉQueSãoElas

Dia 1

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Montevidéu, Uruguai. 2009. Na foto da esquerda para a direita: Catarina Mastellaro, Raísa Ortiz Cetra, Marian Bellamy, Nathália Duo, Lilian Verena Hoenigsberg Krohn, eu e Nicole Aya Konai.

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Escola Municipal de Ensino Fundamental Infante Dom Henrique. Atrás o muro grafitado pelas(os) estudantes!

Conheci a Catarina Mastellaro no curso de Relações Internacionais (RIs) na Universidade de São Paulo em 2008. Na verdade, a gente se cruzou na extensão universitária – por concordar com uma perspectiva freiriana do diálogo (e da luta!), a partir da crítica ao elitismo da universidade e das RIs. A atuação no Centro Acadêmico, o projeto de extensão Educar para o Mundo e uma linda viagem (vinculada ao projeto) para Montevidéu nos uniu por alguns meses.

A admiração e o carinho recíprocos foram imediatos. Fomos juntas para o Uruguai, em 2009, apresentar o comecinho do que era o “Educar” – entre os debates de imigração, direitos humanos e cidade – no X Congreso Iberoamericano de Extensión Universitaria. O término da faculdade e as aventuras mundo a fora não nos permitiram mais o convívio cotidiano. Até que, um belo dia, a famigerada rede social cara-livro nos reaproxima. Ela havia ido ao Irã e escreveu um relato bastante delicado e lúcido sobre nós, humanidade com olhar atento sobre a situação das mulheres com que conviveu no dia a dia de reuniões, no espaço público, ao tomar café e cuidar da vida numa cidade em um estado teocrático.

420805_3350452764198_593566583_nAlém da proposta despretensiosa e agradável do texto, senti uma identificação e emoção ao ler; explico: tenho um carinho especial pelo lugar. IRA_informacoes-ira-2O Irã me é muito, muito querido desde janeiro de 2012, quando conheci uma simpaticíssima família iraniana nos Estados Unidos (no texto, inclusive, a Cat comenta como os(as) iranianos(as), em geral, são gente boa). Éramos colegas de sala e depois amigxs de confidências e festas em um curso de inglês na gelada Ann Arbor (MI). Um irmão e uma irmã – Aydin e Afsaneh. Ele queria fazer biologia e conhecer o Brasil; ela era casada com um médico que trabalhava no Canadá, também iraniano. O pai deles, professor universitário, havia sido convidado como professor visitante na Universidade de Michigan, no seu sabático e para foi, por um ano, com toda família. E, lá estavam os dois, aprimorando o inglês e se esbarrando com coreanos(as), suiços(as), argentinos(as), brasileiros(as)…

Sábado, oito de outubro de 2014, data do rascunho da primeira tentativa de postagem do relato da Catarina, quando ela me autorizou a blogagem. Mas tudo tem um tempo de maturação, principalmente quando suas/amigues já te apelidaram de #vidaloka.

Hoje: falamos em novembro de 2015 da #primaveradasmulheres no Brasil, da semana do #AgoraÉQueSãoElas. De uma grande mobilização nas redes desde a campanha do #PrimeiroAssédio (organizada pelas geninhas do ThinkOlga) e mobilização nas ruas contra o PL 5069 do indigníssimo presidente da Câmara dos deputados, senhor Eduardo Cunha. Pena que o movimento feminista é tão pouco noticiado: esse ano rolou a Marcha das Margaridas em Brasília e a imprensa cri cri cri. A voz, o espaço, a mídia… precisam ser conquistados pelas e para as mulheres. O movimento de quem sempre esteve no rolê (a Marcha Mundial das Mulheres, que é organizadora da Marcha das Margaridas, por exemplo) é fortalecido e oxigenado quando a questão vira pauta, entra na agenda pública e ganha mais adeptas(os). O contexto nos instiga e incentiva a reavivar a luta! A minha será a retomada deste espaço, uma contribuição absolutamente modesta e quase inócua, mas essa é a minha arma. A voz.

MULHERES_OU_OS_SILENCIOS_DA_141974290869755SK1419742908BA historiadora Michele Perrot escreveu um livro lindo-maravilhoso que chama “As Mulheres e os silêncios da História”. Eu amo esse livro. Esse título é absolutamente emblemático. No segundo parágrafo da Introdução, ela diz:

Evidentemente, a irrupção de uma presença e de uma fala femininas em locais que lhe eram até então proibidos, ou pouco familiares, é uma inovação do século 19 que muda o horizonte sonoro. Subsistem, no entanto, muitas zonas mudas e, no que se refere ao passado, um oceano de silêncio, ligado à partilha desigual dos traços, da memória… [PERROT, Michelle. (Trad. de Viviane Ribeiro). As mulheres ou o silêncio da história. Bauru, SP: EDUSC, [1998], 2005, p.9]. Sigamos mudando esse horizonte sonoro, político, social, econômico com nossas vozes! Por isso a importância dessa semana que vai ficar para a História do feminismo no Brasil. Agora e sempre é que são elas. Nós. Nossa voz. Nossa experiência de sujeitos mulheres: que não se pretende universalista e totalizadora, mas plural, diversa, dialógica, acolhedora, solidária e insurgente. Por isso decidi pela retomada em um postagem compartilhada. Uma memória de viagem, de uma experiência feminina em um contexto estigmatizado e controverso no entendimento ocidental quando o assunto é o direito das mulheres. Porque, como a gente aprendeu juntas nos tempos da extensão, as relações internacionais começam ali na esquina (essa é sempre a fala da genial Deisy Ventura, coordenadora do “Educar” ). A imigração, o tráfico de mulheres, a cultura do estupro e a violência contra as mulheres é agudizada com as interseccionalidades de raça, de origem étnica, de situação de (i)legalidade, de trabalho precário e mil etceteras. O olhar atento e sensível no e do cotidiano é construidor de pontes. E, são essas pontes entre mulheres como um sujeito coletivo e entre as lutas (antipatriarcal, antirracista, anticolonialista etc) que nos possibilitam seguir mudando o horizonte sonoro.

Hoje discordo um pouco do final do texto da Catarina, principalmente quando menciona uma revisão do “dresscode” brasileiro. Liberdade significa escolha sem julgamento. Por isso a existência de uBURCA E fio dentalm dresscode (e a pressão sobre as mulheres pela imagem) em si  já é questionável. Sim, é queimando sutiã e talvez correndo seminuas e chocando é que conseguimos, às vezes, chamar atenção para nossa voz além do nosso corpo. Mas concordo com o final sobre a imprescindibilidade do diálogo (inclusive com os homens – opa, começamos o post falando de Paulo Freire) e, também compartilho com a crítica que perpassa o texto da supremacia autoritária-branca-missionária-exploratória na condução da política e da economia internacional. A crítica anti-colonialista é urgente.

Seguimos! Boa leitura.

Relato da Catarina Mastellaro sobre sua ida ao Irã, junho de 2014:

10295380_971535306196755_3936735392037795775_oAmigos queridos, estive no Irã a trabalho e sem acesso ao facebook (as fotos que vieram parar aqui foi pura sorte por causa do Instagram).

Refleti muito sobre tudo o que eu conheci no Irã e queria compartilhar com vocês algumas impressões que eu tive, já que percebi que muita gente por aqui ficou curiosa e curtiu cada momento dessa minha aventura pelas fotos (o que entendo né, afinal quantas pessoas têm a possibilidade de viajar para lá?) 

Antes de tudo, quero deixar bem claro que o Irã parece ser um país maravilhoso, mas eu só pude conhecer um pouco da cidade de Mashhad e infelizmente não fui até Teerã. Espero voltar em breve para conhecer melhor o país.

Acho que o que mais me marcou nesses dias pelo Irã foram as pessoas que eu conheci: as que estavam na rua, as que trabalhavam no comércio, no hotel, os seguranças da mesquita ou os que trabalhavam para a prefeitura e estavam me recebendo no país; não importa, TODOS foram adoráveis. Os iranianos são, antes de tudo, pessoas simpáticas, calorosas, que querem tratar bem os estrangeiros e nos mostrar sua comida, seus costumes e sua história com muito orgulho, mas também com muita curiosidade em saber mais sobre nossa própria história. De todos os países que já visitei, sem dúvida foi um dos países que mais me marcou pela recepção que recebi.

A paisagem também é linda: montanhas para todos os lados, tons de verde e azul que se misturam com onipresentes tons de marrom e de ocre, lembrando a todo tempo que você está numa paisagem do Oriente Médio. O calor é intenso (pois era verão), mas é substituído pela neve durante o inverno (sim, com direito a esquiar e tudo mais). Os prédios são, em sua maioria, baixos, em estilo arquitetônico bem original (uso misto sempre!) e bem diferente daqueles prédios gigantes e horrendos que vem à nossa cabeça quando pensamos em cidades como Dubai ou Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, por exemplo. Mashhad é uma cidade muito original, humana, com uma escala agradável (embora o transporte público e os espaços para pedestres ainda estejam evoluindo) e que preserva suas tradições, parecendo por vezes estar totalmente alheia do processo de perda de identidade que as cidades emergentes sofrem com o avanço da globalização. Aliás, não vi nenhum Mcdonalds ou qualquer outra referência-mor do consumismo ocidental por lá.

Sobre a religião: o Irã, desde a revolução islâmica, é uma república islâmica, ou seja, é um Estado teocrático. Religião e política se misturam, e a mulheres devem portar o hijab (lenço na cabeça) conforme disposto na Constituição ou podem ser multadas e até presas, segundo a lei. Acho que isso é o que mais assusta quem vem de fora, mas quando você chega por lá, percebe que as coisas não são tão assustadoras como parecem ser ou, pelo menos, bem mais tranquilas do que as notícias que lemos sobre as mulheres na Arábia Saudita.

No Irã as mulheres dirigem, andam de bicicleta, saem sozinhas de casa, trabalham (e eu fiquei impressionada com a quantidade de mulheres que trabalhavam na administração pública em proporção aos homens), enfim, sofrem sim com uma discriminação, um certo tratamento inferior por parte dos homens mais conservadores, mas nada que muita brasileira já não tenha vivenciado. O que se percebe – e que muitas me falaram – é que “as coisas têm evoluído” e que a mudança tem “partido de dentro”. Nas reuniões de trabalho, eu, assim como as iranianas, as vezes discordávamos do que diziam os homens e éramos ouvidas, e as coisas fluíam num diálogo extremamente saudável.

Obviamente, eu tive que seguir o dresscode (e fui muito elogiada por tê-lo feito tão bem), mas, em todas as várias vezes em que meu hijab escorregou e meu cabelo apareceu, em vez de insultos ou ameaças, ouvi as pessoas me dizerem que “não tinha problema, isso acontece, sabemos que você não se veste assim, mas como aqui é obrigatório por lei vestir-se assim, você precisa portar o lenço. Mas entendemos que você se vista diferente”.

Nas ruas, muitas mulheres se vestem com um lenço de seda cobrindo apenas o coque do cabelo, deixando a franja a mostra. Colocam salto, usam cores e muita maquiagem. Pareciam incrivelmente belas e misteriosas aos meus olhos. Outras se vestiam com o chador preto (em persa, conhecido como abaya no mundo árabe). Raras vezes vi burcas (aqueles “chador” que cobrem todo o rosto, deixando apenas o espaço para a visão). A maioria das burcas que eu vi foi no aeroporto de Mashhad, na fila de embarque para Damman, na Arábia Saudita.

Visitei o Santuário Imam Reza, uma enorme mesquita com mausoléu (é muito mais do que isso, mas não consigo definir com palavras o que é aquele lugar, parecia outra cidade dentro de Mashhad), conhecido por ser o lugar mais sagrado para os muçulmanos depois de Meca, na Arábia Saudita (mais de 20 milhões de peregrinos vão ao Santuário todos os anos, o que lembra uma “Aparecida” muçulmana para quem é de São Paulo). Quando estive por lá tive que vestir o chador: em lugares sagrados as mulheres devem cobrir todo o corpo, deixando apenas o rosto a mostra, e esconder todo o cabelo dentro do chador, sem deixar a franja aparecer.

O que me aconteceu por lá foi interessante: sentamos no chão por um momento e, quando eu me levantei, meu chador foi para trás e minha franja apareceu um pouco. Naturalmente, um segurança veio alertar, em persa, depois em árabe (sim, as pessoas achavam que eu vinha de lá ou de outro país do Oriente Médio), que eu deveria esconder o cabelo. Como não entendi nada, uma iraniana que estava comigo começou a explicar que eu era estrangeira. Senti muita vergonha naquele momento, tive certeza de que iam me recriminar por estar em um local sagrado “fazendo turismo”. Por uns instantes me senti ridícula vestindo um chador e visitando o Santuário sem ser muçulmana. No entanto, a reação dele foi inesperada: ele sentiu muito mais vergonha do que eu pelo que havia feito. Pediu muitas desculpas por ter abordado uma turista dessa forma e quis saber de onde eu vinha e porque eu estava ali. Eu podia ver no seu rosto como estava envergonhado com o ocorrido e, ao mesmo tempo, animado com a minha presença ali. Para se desculpar, trouxe flores que ficam no alto do mausoléu (ou seja, sagradas) e nos deu de presente. Ou seja, intolerância aos estrangeiros, que parece ser a regra quando a mídia ocidental se refere ao Oriente Médio, definitivamente não se encaixa ao Irã que eu conheci.

Obviamente que para a mulher estrangeira a vida no Irã é mais fácil, mas as próprias iranianas reconheciam que as coisas estavam progredindo para elas também. Outras me explicavam porque elas achavam correto a mulher ter que usar o chador no ambiente de trabalho: afinal, uma mulher bem vestida no escritório pode desviar a atenção do homem para o trabalho e diminuir o desempenho daquele em suas tarefas. (esse momento me lembrou as reações no Brasil àquela pesquisa do IPEA sobre a forma de se vestir da mulher e a propensão do homem em estuprá-la. No final das contas, o argumento é o mesmo, desviar para a mulher e sua vestimenta a responsabilidade pelos atos do homem, não?)

Por fim, não quero concluir nada dessa minha semana por lá: alguns dias são insuficientes para qualquer tipo de conclusão. E é justamente esse meu ponto: como podem estudiosos, acadêmicos, ativistas, políticos ocidentais serem capazes de julgar o que se passa no Irã à distância, por meio de informações problemáticas que nos são enviadas por mídias enviesadas e, pior ainda, permitir que alguns países interfiram na realidade dessas pessoas, com sua tamanha ignorância do que é essa realidade? Acho um absurdo esquecer-se do lado humano daqueles que habitam os países, aqueles que, no final do dia, fazem exatamente as mesmas coisas que nós fazemos aqui, no “Ocidente”: vão ao mercado, levam seus filhos a escola, passam finais de semana com suas famílias, sonham com viagens pelo mundo e com uma vida feliz.

Em todos os momentos em que eu me irritava com o fato de ter de fazer atenção ao meu lenço ou com a manga comprida que eu devia vestir num calor de mais de 30 graus, eu não me revoltava contra os adoráveis iranianos que eu estava conhecendo naquela viagem, minha revolta era contra governos ocidentais que levaram (e levam) à vitória o radicalismo islâmico (Antes de 1979, as mulheres não eram obrigadas a vestir o hijab no Irã). Em meio ao que temos visto no Iraque, eu me perguntava quando é que vamos parar de ver países invadindo outros e promovendo ódio e medo contra aqueles que estão tão longe, onde a CVC não te leva nas férias em família para você ver que estes nada mais são do que seres humanos como todos nós.

Espero, também, que movimentos pró-direitos das mulheres (direitos estes vistos quase sempre do ponto de vista ocidental como o Femen) se voltem mais para seus umbigos e repensem o dresscode da mulher brasileira, por exemplo, antes de querer colocar o dedo onde não foram chamados e onde o progresso tem ocorrido de dentro. A passos lentos, é verdade, mas dentro dos limites do que é possível naquela sociedade (recomendo, por exemplo, que acompanhem o movimento “My stealthy freedom” de mulheres iranianas que questionam a obrigatoriedade do hijab). Não é correndo nuas que as mulheres vão mudar a situação da mulher no Irã, e isso é facilmente percebido em alguns dias pelo país: é preciso muito respeito e diálogo num processo que venha de dentro e não que seja, mais uma vez, imposto por aqueles homens brancos que acham que desde os tempos da colonização eles sabem de tudo o que é melhor para a humanidade e carregam essa “missão” de interferir para mudar o mundo.

Enfim, eu voltei encantada com o que eu vi e muito grata por ter tido a oportunidade que eu tive. Espero que vocês também possam conhecer um pouquinho do Irã algum dia. 

PS: para aqueles que querem descobrir mais sobre o Irã o quanto antes, recomendo fortemente o cinema iraniano. O filme “A Separação”, o primeiro filme iraniano a receber o Oscar de melhor filme estrangeiro (2012), é um dos filmes mais lindos que eu já vi.

 — in Mashhad, Iran.

um pontapé: feminismo, futebol, copa do mundo e a pauta “positiva”

[das idas e vindas, o primeiro rascunho para um post desse blog data de vinte de agosto de 2011. Três anos atrás. Aniversário do responsável pelos 25% de herança (polêmica) germânica. Tempo de menos preocupação com os quilos e igual preocupação com a cifra no Banco do Brasil, tempo mais riponga, de madeixas mais longas e de mesma cara de pau] 🙂

O chute inicial do blog, compartilhar conhecimento – de lugares, referências e de etceras – e despejar pensamentos.

A Copa tem a ver com o chute que tem a ver com futebol que tem a ver com feminismo pra mim. Eu estava na sexta série, era magrela esquisita de testa gigante e usava óculos, tinha mudado de sala e sentia zero identificação com as patricinhas da turma. Aí apareceu o futebol. No recreio tinha a “Lígia” que jogava com os meninos porque “jogava muito” e tinha as meninas que jogavam. Elas eram mais velhas, mais confiantes, era um “jeito de ser nem aí” que me atraía. Timidamente comecei a jogar com elas, eu ia “na raça” (porque habilidade nunca foi meu forte!). Essa raça dava certo, corria, tomava bola e ensaiava até uns dribles e batia bem de bola parada. Começamos a treinar, mas sempre de brincadeira, no colégio, nos campeonatinhos interclasses. As patricinhas da minha classe também depois começaram a gostar de futebol. E, na sétima série, ganhamos da oitava. Foi a glória. Troféu de acrílico do colégio flamingo + colégio das Américas. Os meninos torcendo pra gente. Nos recreios, eles passaram a dividir o tempo da quadra, “porque a gente também tinha o direito de jogar”. E não era jogar vôlei (com todo respeito), era jogar bola! Era 1998. Hoje, dezesseis anos depois, na Copa do Mundo no Brasil (em que virei gente grande, me considero feminista com F maiúsculo e faço plantão no trabalho [que na real, nada mais é do que um baita tempo ocioso pra ser legal com jornalista estrangeiro(a)]), vejo como essa entrada no futebol foi fundamental para o feminismo pra mim depois. Para a perspectiva real de que, de fato, a igualdade e a autonomia das pessoas para além do sexo e do gênero são horizontes possíveis e desejáveis. A gente jogava bola na sexta série. A importância simbólica do que foi esse fato pra construção do que sou euzinha hoje, tá difícil de tentar traduzir em texto!
Primeiro dia da Copa 2014… Caminhando ontem de manhã pelo vale do Anhangabaú para chegar à prefeitura, nenhuma vuvuzela… Ah, isso não é clima de copa! Penso eu vindo da Barra Funda/Perdizes. À tarde um café pós reunião  na FGV com uma amiga residente de Itaquera (onde tem que pegar uma van depois da estação de metrô corinthians-itaquera), eu tomando café e ela no telefone:

– Não, amanhã não tem condições de sair da Z.L…. Domingo já estava tenso, tudo quanto é rua fechada porque estavam pintando o chão.

Nesse décimo de segundo avoam na cabeça: ah, a segregação geográfica, as desigualdades tantas da cartografia urbana e social da paulicéia, as classes sociais, o Itaquerão, a greve do metrô… A confraternização no bairro das pessoas colorindo a rua na periferia! Muito além das minhas experiências e impressões restritas ao perímetro do tal centro expandido. Voltamos ao nosso café rápido e nos despedimos.

Divido o trabalho na prefeitura com os tais plantões no CAM – o Centro Aberto de Mídia. Uma iniciativa da prefeitura (algumas outras capitais também fizeram) para bem recepcionar jornalistas estrangeirxs não cadastradxs pela Fifa. Montado na belíssima Praça das Artes, conexão de internet xuxu beleza e, no plantão, aquela liberdade desses trabalhos pós-modernos intelectualizados e com verniz cool (TIPMCVN).

A pauta positiva: nós, o “pessoal da prefeitura”, tivemos um seminário para trabalhar aqui no CAM e apoiar estxs correspondentes que aqui aportariam meio perdidxs. A equipe responsável pelo centro organizou um ‘livro preto’ com as principais políticas municipais, com informações sobre as colônias dos países da Copa em São Paulo etc etc. A ideia dessa formação e desse black book era ter material de fácil acesso para gerar “pauta positiva”. Informações oficiais do legado da copa na ponta da língua, informações sobre as colônias em São Paulo dos países participantes, as principais políticas municipais etc etc etc.

Fiquei com essa de “pauta positiva” que entendi como: para além do futebol, coisas legais do Brasil; martelando na cabeça. Pauta positiva, que não é negativa, no sentido de crítica e que propõe algo diferente do assunto futebol, ou não exatamente relacionado. (?!)

Plantão, conexão, navegação…. A gente procrastina nesse TIPMCVN e invoca de mudar a imagem do perfil de Facebook. Queria entrar no “clima da copa”, gente, vamo lá que xs gringxs já estão tudo aqui e o evento vai acontecer; sem tirar o pé da crítica: claro, futebol feminino! O nascimento desse post foi a maturação desse contexto todo nos últimos dias. A mudança da foto veio primeiro, depois a lembrança dos meus tempos de colégio e faculdade jogando (stressadíssima, porque nunca me conformava se as meninas do time não se esforçassem máximo para ganha, #achata) e o feminismo e a pauta positiva….

campanha da FIFA para copa de 2006

campanha da FIFA para copa de 2006

A troca da imagem de fundo no famigerado Facebook: havia visto na revista do Sindicato Central do Brasil, distribuída no lançamento da campanha “Agenda para o Trabalho decente na cidade de São Paulo” (coisas legais de trabalhar na prefeitura). Lendo a revista, uma reportagem sobre a Copa 2014 e essa foto que reproduzo ao lado: as seleções da  França e dos Estados Unidos em uma campanha contra o racismo no futebol. Boa, clima de copa com pitada de crítica feminista e anti-racista.

Claro que a crítica tem que passar pela violência policial inaceitável no Brasil. Chenty, protesto tem desde que o mundo é mundo e por isso a gente inventou a democracia, que veio embutida no pacote do Estado-nacional com o tal do trato hobbesiano e o monopólio weberiano da violência legítima. Só que não, aqui no Brasil, as forças policiais são incapazes de terem um padrão de atuação não ostensivamente repressivo, violento e absurdaço. É bala de borracha e gás de pimenta pra cima de todo mundo. Segundo uma amiga querida (@maroramos), a gente tem a impressão, principalmente olhando o que a PM faz cotidiamente nas favelas e periferia Brasil afora: de que “64 never ends”.

Enfim, esse assunto nos leva ao melhor vídeo crítico da Copa, o sarcástico, inteligente de um programa que chama The Last Week Tonight com o comentarista John Oliver. Crítico porque para além da mesmice da nossa mídia-mágoa no coro “petistas são corruptxs” (não que parte deles não seja e que não haja tanto quantxs corruptxs tucanxs e de outrxs partidos, mas o buraco é sempre mais embaixo que a corrupção). Resumo: o vídeo questiona o tal #padrãoFIFA e a corrupção multizilionária #padrãoFIFA! Que para além do puro e simples roubo, decide projetos e diretamente mata pessoas.

O tal John Oliver consegue passar essa mensagem muito diretamente e ainda cita cera de depilação e nossa paixão pelo futebol. (tô com dor de cabeça pela tensão do jogo de hoje). Foi o primeiro jogo da copa no itaquerão, Nóis contra a Croácia! Ontem chorei (tipo literalmente) com a primeira defesa do Julio Cesar nos pênaltis.

Num desses dias de TIPMCVN, descubro o Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa. Futebol Feminino incentivado pela prefeitura. (pauta do próximo post, se não esse blog só sai em 2035…)

tamos aqui também ó @melina_sp

#ficadica dessa matéria ótima sobre futebol feminino: Female Warriors: http://www.aljazeera.com/indepth/features/2014/06/brazil-female-warriors-fight-football-2014626111222683712.html